Cadê meu tom de pele?

terça-feira, 22 de setembro de 2020 Postado Por: umapamplona

 


Seu tom e meu tom.

Estou rascunhando esse texto desde o ano passado, quando um colega me perguntou sobre uma certa marca e que na capa dos seus planners só haviam mulheres magras e brancas. Esse ano a Vanessa me mandou a mesma indagação via DM. Guarda essa informação aí.

Eu estou assinando alguns APOIA.SE de ilustradoras. Quatro, para ser específica. Em alguns deles vêm páginas para colorir e parece que voltei ao meu primário: Cadê meu tom de pele nos lápis de cor?

Não sou branca.

Não existe pardo, mas o colorismo me dá margem para achar isso.

Não sou indígena. Nasci aqui na capital. Não tenho laços diretos com nenhuma aldeia.

Não sou preta o suficiente para alguns da militância negra. Eu sou o quê? Qual meu tom de pele?

Quando criança, na hora de colorir algum desenho, eu sempre olhava perdida para os lápis de cor. O meu tom ou seria o marrom ou nenhum. Deixava em branco a parte de pintar a pele do desenho.

Tenho certeza que não era a única criança a se sentir assim, então é com muita felicidade que vejo marcas colocando uma variedade de tons de pele em maquiagem, acessórios (como sapatilhas para bailarinas) e até aqui, no ramo da papelaria, em lápis de cor e canetas.

Agora volta para aquele estalo lá em cima das marcas de papelaria e seu mostruário de brancas, loiras e magras. Ah, o padrão... Ele vende, não é? Estamos em época de lançamentos de planners nesse último trimestre do ano. Na mesma época, em 2019, meu colega lá de cima foi perguntar em uma loja que vende planners em média por 400 reais, cadê a representatividade nos planners? As capas que têm figuras estão sempre com as "padrãozinho". No feed deles no instagram, o mesmo padrão: limpeza. A pureza do branco. O luxo de itens caros acompanhando seus produtos. Para não ser injusta, esse ano de 2020 têm dois posts com imagens de "pessoas de cor" (pegando a expressão POC: People of color, do inglês).

Quando indagados pelo meu colega onde estavam as pretas do feed, alguém responsável por responder no instagram simplesmente respondeu que haviam pessoas DIVERSAS na equipe. A minha pergunta fica: a DIVERSIDADE está em servir quem aparece no feed? Depois disso deixei de seguir.

Vamos a outra marca: esse ano ela tirou a cabeça do c* e jogou uma modelo preta constantemente no feed, mas a maior parte é de modelos brancas. Adivinha onde têm mais likes nas fotos? Quais têm mais compartilhamentos? Então...

Agora vamos para outro ponto. Além das capas... Vamos falar de adesivos? 
Eu cansei de olhar para as modelos magras, brancas e loiras.
Eu não sou branca, sou gorda e com cabelo cacheado. Cadê eu? Cadê meu tom de pele?
Há uns anos eu comecei a reparar nisso e a primeira ilustradora que comprei algo onde me reconheci foi a Keena, do Keena Prints, e sua Keenami
Sabe de onde a compra vem? Filipinas.
Eu tive que achar algo com que me relacionasse só fora do meu país em 2016!
Hoje é muito mais fácil achar ilustradoras que coloquem em imagens como eu me vejo e vejo outras mulheres fora do padrão. No Brasil, tem a Lulooca, a Andressa Silva, a Helô (que ilustrou os adesivos lá em cima no post), a Renata Nolasco e outras. Sigo várias pelo perfil do insta pessoal ou do Uma e pelo twitter.

Será se é mais fácil para ilustradoras independentes e seu público poderem ter essa mentalidade de diversidade? Que somos pretas, amarelas, gordas, com cabelos crespos e montados, de óculos, com jeans rasgados e sandalinha de dedo? Que nem só da imagem de luxo vivemos?

Esse planner ao lado eu comprei por impulso e admito que foi pela capa. Olha a quantidade e diversidade de mulheres. Uma imagem tão bonita que eu facilmente colocaria em um quadro aqui em casa. Será mais fácil para essa marca desconhecida estampar essa capa do que para uma que vende um produto parecido por 20 vezes o valor?

O problema está na marca e seu desenvolvimento de produto ou no público que só consome o que lhe é dado? 

Vamos mais longe: quantos professores negros você teve no ensino superior? Quantas de nós tiveram avós com ensino superior? Cadê o tal eMpOdErAmEnTo que vocês gritam e embelezam suas legendas, mas faltam-lhes consciência de que o tal empoderamento é algo COLETIVO?

Se eu não me vejo representada, como acreditar que vou chegar em certo ponto? Como meninas de 8 anos, como a Renata do passado, vão acreditar que podem conquistar o mundo com o tom de suas peles se só vêem as brancas, de cabelos e pele clara, chegarem lá no pódio?

Se o discurso tem poder, cadê as vozes de várias pedindo mais representatividade? Pode até ser que eu esteja falando sozinha a esse ponto nesse post (que ficou maior do que eu esperava) e ser uma "problematização chique" este post, mas eu sou mulher, um ser político, e estou mudando meus modos de consumo. Meu dinheiro não cresce em árvore (se o seu cresce, me manda uma muda?) e posso escolher quem o vai ter. E você? Está vendo sua imagem por aí?

Beijos e até a próxima, jovens.

Compartilhe Isso:

Comente (Via Facebook)

Comente (Via Google)